Ficção I – O ato inerme e vulnerável

De pé, no cais da estação, a espera. A gabardina azul escura de gola levantada, a camisa roxa por baixo, a banalidade das calças jeans, toda a roupa envergada como uma couraça contra a multidão desconhecida anónima. A multidão indiferente hostil: indiferente na sua hostilidade, hostil porque indiferente.

O silvo, a percussão sucessiva ritmada, o cheiro mecânico da massa metálica em movimento: a aproximação do comboio. A paragem ruidosa da composição, o abrir seco das portas, a entrada. O movimento da gente, continuidade mecânica da deslocação das carruagens.

A busca de um assento, a luta por um assento. A pasta de cabedal em riste como arma de gladiatura naquela arena claustrofóbica. A conquista de um lugar, as pernas fletidas sobre o estofo como um gesto de polegar imperial erguido, a couraça azul escura a tocar o padrão aveludado do encosto num roçagar vitorioso.

Depois, o arranque, o comboio em marcha. A gente toda parada na sua deslocação. A descontração da gabardina, o abrir do fecho da pasta como um gesto de deposição dos ferros da batalha. Surdir o livro lá de dentro como um truque ilusionista, um arabesco de transcendência. E ler. Abstrair-se de tudo, esquecer a imprescindível couraça, ignorar a inevitável indiferença hostilidade, centrar-se no ato inerme e vulnerável. Ler.

O comboio em andamento, a gabardina imóvel, o corpo sentado, o olhar mergulhado, o cérebro aceso, o espírito elevado. A vida toda. Ler.