Ficção XII – Última sessão

Olhou-se ao espelho e sorriu. Sob a luz rasante matinal que a exígua janela quadrada emprestava à casa de banho, o seu rosto era o mesmo. Mais cavado das rugas do tempo, mais maduro das dores da sobrevivência, era o mesmo rosto de vida, a mesma expressão de luta. E de vitória.

Olhou-se ao espelho e sorriu. O cabelo acastanhado que outrora lhe escorria sobre os ombros em ondas vaidosas suaves, desenhava-se agora discreto e curvilíneo, rasteiro ao couro cabeludo num despenteado ralo que já fora medo e vergonha para se tornar alívio. E esperança.

Baixou os olhos lentamente. Contemplou o corpo magro, vencida já a rejeição de não ser capaz de olhá-lo, debilitado pela angústia, fortalecido na resistência. E na luta: os ombros erguidos, o desenho enérgico e atraente dos braços. E o peito.

Houve uma comoção, uma espécie de estremecimento marejado nos seus olhos claros, ao observar-se assim, na crua nudez da condição humana: a falsa simetria do busto minado pela doença, talhado pela cura, reconstruído pelo ilusionismo da ciência e da técnica.

Olhou-se ao espelho e sorriu. Treze meses. Os sintomas, os receios, o diagnóstico, o pânico. A decisão de lutar, o desafio, a cirurgia e a recuperação. E a terapia. Sobrevivência. Treze meses de uma história de mergulho e recomeço, de escalada a pulso, de emergência e mutação. Ela mesma diferente, a mesma essência completa numa extensão amputada. E refeita.

Olhou-se ao espelho e sorriu. Uma força inexplicável crescia no seu íntimo, porque estivera sempre lá.

«Sou mulher!», gritou por dentro, «Sou mulher e estou viva!…»

Virou costas ao espelho, regressou ao quarto, vestiu-se. Era o dia da última sessão de radioterapia.

Sobrevivência. E vitória.

Sorriu.