Ficção XXVI – Feito de luz

Reparava nele há muito tempo. Sentia não representar nada para ele, pelo menos nada de especial ou de notório, porque ele parecia olhar na sua direção como se não a visse, ou como se ela fosse uma inexistência, algo transparente ou uma mera presença etérea que não chega a ser obstáculo ao olhar que quer ver mais longe. Não percebia que ele olhava para dentro dela, para o seu íntimo. Mas reparava nele, apesar disso. E cada vez mais.

Conhecera-o no terreiro da aldeia, junto à fonte. Depois vira-o mais vezes, à sombra dos toldos do mercado ou num repouso de soleira ao fim da tarde. Sentira-se atraída desde o início por aquela simpatia lavada da sua presença, pela frescura trigueira do seu cabelo ondulado, pela suavidade envolvente e tranquilizante da sua voz e das palavras que dizia. E depois havia aquele brilho, aquela espécie de irradiação, aquela como que expansão de luz por todo o espaço em redor, quando ele sorria!… Sentira-se atraída desde o início, ou talvez no início não fosse atração, mas apenas curiosidade: como é que se pode ser tão profundamente alegre, como é que se consegue lançar por todo o espaço em redor uma tão permanente atmosfera de harmonia, otimismo e esperança? E confiança, sobretudo. Porque tudo nele dava a entender que nada podia falhar, que qualquer coisa acreditada resultaria em pleno. Olhava-o como se ele fosse um ser protegido, aureolado por uma mandorla de inevitável conquista. E ninguém fraquejava, ao pé dele.

Lembrava-se de como a curiosidade crescera dentro dela num remoinho excitante. Passara a procurá-lo com o olhar, ao sair da porta pela manhã, a tentar sentar-se perto dele nos ajuntamentos que ele atraía, a chamar o olhar dele com a insistência do seu em todos os momentos oportunos. E nos menos oportunos também. Até que conquistara finalmente a atenção dele. Não uma atenção exclusiva ou especial, mas apenas uma parcela da solicitude polida que ele derramava sempre, na pródiga delicadeza da sua atitude. Lembrava-se de como se agarrara a isso como se fosse uma borda generosa do pão que deveria ser partido em partes rigorosamente iguais, de como aceitara iludir-se nesse pensamento para poder sonhar com um lugar de eleição no coração daquele homem que admirava, porque parecia feito de luz.

Um dia, o lampejo do olhar dele atingiu-a, ele embrulhou-a no veludo da sua voz:

— Como te chamas?

— Maria – disse ela, abrasada no íntimo por um calor de cera derretida.

— És daqui?

— Sim, nunca pisei outro chão.

Ele levantou-se, chamou os seus, que o acompanhavam, pôs-se em marcha. E, na eloquência de um gesto, convidou-a a segui-los. E partiu dali, de Magdala.